segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Nova estrada
     Suspirou ao olhar a imensa estrada diante de si. Não havia nada que visse e pudesse reconhecer. Mas talvez devesse ser assim mesmo. O tal desconhecido, o famoso "novo" bem ali, a alguns passos, diante de sua tão frágil existência. O brilho do sol refletia na estrada, dando-lhe um ar de mágica, especial, única - a sua estrada. Mas, como seus olhos não conseguiam atingir o fim, a estrada dava-lhe também um ar de medo. Sabia, porém, que essa sensação não vinha da estrada. Era o desconhecido, o novo. Não podia voltar-se e reabrir a porta que deixara para trás. Ela era o passado; o seu presente futuro estava ali, à sua frente: aquela estrada. E era preciso prosseguir.
     Suspirou ao olhar a imensa estrada diante de si e sorriu, pois percebeu que não estava só. Ao seu lado, milhares de pessoas, todas de branco, todas sorrindo, com olhares cheios de esperança, desejo e o sonho de que tal estrada os levaria para o melhor. Magicamente (a estrada era mágica, já suspeitara), deram-se as mãos e ergueram suas frontes ao sol, recebendo o calor e a motivação de que tanto precisavam naquela nova jornada. E deram, juntos, o primeiro de muitos passos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


Desejos de Ano Novo

O Natal havia passado há dois dias, e lembrava-se com gratidão da Ceia de Natal preparada em família. Casa cheia: parentes, amigos, irmãos. Todos à volta da mesa, com as mãos em prece, agradecendo aos céus por mais um Natal. Emoção e repeito ao Grandioso no coração de cada um ali presente. Depois, a alegria da troca de presentes, brindes ruidosos com taças de espumante e desejos sinceros de um feliz Natal. O mundo não havia acabado, afinal. E ela podia alegrar-se, na companhia das pessoas que mais lhe eram especiais, naquela noite feliz.
Agora, que todos já haviam partido e ela se encontrava em sua sala, sozinha, folheava velhas revistas e pensava sobre o ano que viria daí a pouco. Tinha uma lista especial de desejos. Queria fazer mais, aproveitar mais, sorrir mais e se estressar menos. Queria um ano de paz. Também queria viajar três vezes no ano; trocar de carro quando recebesse o décimo terceiro; publicar o livro no qual vinha trabalhando há tempos; aprender a tocar violão. Queria criar a regularidade de malhar três vezes por semana e não apenas quando ela sentisse que as roupas não estavam lhe caindo bem. Queria ver o pôr do sol uma vez, pelo menos, a cada quinze dias. Queria cortar o refrigerante, reduzir as frituras e os doces. E ler, religiosamente, três livros a cada mês. Gastar mais tempo cuidando de si mesma, ouvindo boas músicas, conversando com seu filho. Queria que essas coisas boas se estendessem a todos a quem ela queria bem, aos homens e mulheres de boa vontade espalhados por este vasto mundo.
Seus desejos eram bem próximos dos de boa parte do mundo, pensou. Deu uma sonora gargalhada, admirada por sua lista ser tão especial e, ao mesmo tempo, tão comum. Levantou-se do sofá, largou a revista num canto e pôs-se a cantarolar uma canção em homenagem aos desejos que todos nós, simples humanos, temos de que o mundo seja, um dia, melhor. Quem sabe em 2013?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012


Apenas
Tudo parecia ter sido previamente combinado com os céus. O dia todo fora o mais lindo de que ela se lembrava; a tarde, agradabilíssima; e agora, justamente quando dia e noite se fundiam, numa dúvida tremenda quanto a se despedirem ou não, aquele crepúsculo especial estava divinamente único. Estava o ocaso encantador, tingido de vermelho e azul negro, especialmente naquele dia. Ela contemplava o horizonte, braço dado ao seu amado, cabeça reclinada sobre seu ombro. Inspirava e expirava, sentindo seus corações baterem sincronicamente. Era um silêncio e uma paisagem que diziam tudo, ainda que sem palavras. O mundo poderia acabar ali, como tanto se anunciava, não se queixaria nem um pouco se isso acontecesse. Toda a perfeição de um mundo, se pode ser reduzida a um segundo, era àquele.
Quando o amor acontece, nada mais que importa existe. Param tempo, ritmos, calendário. Compõe-se um cenário que testemunha junto à natureza a grandeza do que se sente. Apenas.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Naquele abraço

Tentando poetizar as tantas partidas que acontecerão ou já aconteceram hoje, aqui na Escola SESC de Ensino Médio. Tentando deixar gravado um pouco do misto entre dor e alegria  por ver que vocês encerraram essa etapa da vida. Tentando amenizar a própria dor, secar as próprias lágrimas, acalmar o próprio coração. 
Vocês sempre serão os primeiros... Que Deus os abençoe sempre. 

Era a hora de dizer adeus e ambos sabiam disso. Adiaram o quanto puderam, mas, quisessem ou não, chegara o momento em que não há mais pausas a serem dadas, nem hiatos que não sejam preenchidos. O momento exato que sempre se soube um dia chegar, mas sempre se desejou inexistente. A hora era chegada.

Olharam-se. Um levava uma mochila nas costas. O outro trazia a pequena mala nas mãos. O instante era de dor e tristeza, mas havia também uma magia que enlevava não aqueles corpos, mas os espíritos, a um estágio de leveza e nostalgia. Largaram tudo no chão - lá onde já estavam sua dureza, seu mau humor, sua solidão, coisinhas que aprenderam, com a magia da convivência, a largar, porque descobriram que o melhor é o coração mole, o bom humor e a parceria. 

E abraçaram-se. 

Naquele abraço, toda a paz, todo o bem querer e toda a felicidade que se possa desejar a alguém. Naquele abraço, um mundo de bons sentimentos, de boas lembranças, de braços dados e lágrimas em comum. Naquele abraço, as dúvidas de tanto tempo, as certezas que duram só um segundo, as expectativas de uma vida inteira. Naquele abraço, o encontro de duas almas, que se tornaram uma só naqueles anos de convivência. Naquele abraço, a cumplicidade, a concretude do significado da palavra "irmão", a generosidade da partilha, o companheirismo, a lealdade, o ombro sempre amigo, sempre presente, sempre tão seu.

Quando se soltaram, havia muitas lágrimas nos olhos de ambos. Mas sabiam que o momento já não mais se podia adiar.

Beijos nas mãos e o adeus marcaram, taciturnamente, uma despedida que, sabiam, se reproduzia uma centena de vezes naquele dia, naquele local. O fim de um começo que daria continuidade a muitos abraços e encontros, sempre únicos. Como aquele.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O beijo

O casal se beijava de maneira descansada e ao mesmo tempo intensa e apaixonada. Não havia pressa ou desespero, embora no beijo sobrasse paixão - que, por vezes, é desesperada. Havia carinho, cuidado e, digamos, até uma certa elegância. Corpos sincronizados, numa sinfonia de bocas, línguas, salivas, mãos, almas, corpos.
O tempo parecia ter parado, e as pessoas, à volta, sumido. Existia apenas o casal. Que se encontrava num beijo demorado sobre a imensidão azul do mar. Sim, pois estavam num barco, deslizando sobre a Baía de Guanabara.
As águas batiam no casco do barco e as ondas forçavam-no a balançar. Balanço que ritmava o encontro. Encontro de duas almas ali tão íntimas. Intimidade coroada com aquele beijo bom.
O mar é grande. Mas sumiu no tempo exato daquele beijo, naquele lugar, com aquele casal que explicava - a quem não soubesse - o significado de amor, paixão, carinho, querer bem, gostar de estar com, felicidade, encontro, desejo, comunhão, troca, carpe diem... 
Sem escolha, o mar, tão grande, rendeu-se à paixão e ao carinho humanos naquele longo espaço de beijar.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O quente pode ser frio

O dia estava quente, daqueles em que se pode ver a fumacinha quando se olha com apuro para o asfalto. O sol parecia debochar dos humanos que exibiam gotas de suor e sofrimento. Nenhuma folha de árvore balançava. Não havia pássaros voando. Na rua, somente os infelizes que não podiam escolher o ar condicionado da casa, trabalho ou shopping. E que caminhavam a passos largos, se abanando, secando a testa suada, procurando encontrar refúgio e frescor.

Ela, alheia a todo essa quentura, estava sentada no banco de uma praça. Sozinha. Sob o sol escaldante, imersa no calor. Tinha o olhar fixo, a testa enrugada, um sorriso sem graça nos lábios. Contemplava a vida que passava, sem sentir o corpo ou a alma aquecendo. Sua alma, aliás, estava fria e refrescava também a pele que, em oposição a de todos os demais, não suava. 

Se observassem bem, veriam que seus lábios eram arroxeados. Mas ninguém parecia notar que ela estava ali, ocupados demais em encontrar lugares frescos. Nem ela mesma  se reparava. Só tinha a certeza de que sua existência era fria, embora refrescante naquele dia de verão.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012


Prece
O dia passava sombriamente. Ele olhava o relógio, inquieto diante do ponteiro que parecia expor suas fraquezas e limitações. A sala, como qualquer sala privada de espera num grande hospital, era silenciosa, exceto pela marcação dos segundos naquele maldito relógio. Aguardava notícias da operação de sua namorada, a mulher que havia escolhido para ser sua pra sempre, mas que acabara de sofrer um acidente de carro, enquanto se falavam por telefone. Estava grávida, no quinto mês. Ele, tenso, aflito e assustado e com medo. Uma hora e meia e nenhuma informação. Sozinho. Com medo. Mal.

Num instante, ela chegou. Era uma menina branca, de aproximadamente oito anos, vestidinho xadrez, rodado, duas tranças pendendo nos ombros, acabadas com exímios laços cor de rosa. Sentou-se ao seu lado. Ele estranhou, pois a sala era privada.

- Você se perdeu de sua mamãe, querida?

- Não. Vim falar com você.

- Como? Ele perguntou enquanto esboçava, desconcertado, um sorriso sem graça.

Ela o olhou ternamente e sorriu. Juntou as grossas mãos do homem, como na brincadeira de passar anel, e as soprou. Levantou-se e saiu.

Ele não conseguia desgrudar seus olhos da menina, tampouco as mãos, postas como em prece. Como que aproveitando a posição das mãos, cerrou os olhos e rezou.

Na sala de operação, foi ouvido um suspiro profundo, mesclado a um som agudo e uniforme.
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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Tocando em frente
Era uma vez uma manhã. E uma mulher que se levantava decidida. Nos últimos meses, ela havia pensado muito em muitas coisas. Preferia refletir, escolher, escrever. Nesse processo, descobrira o óbvio: o tempo passava - e não voltava. Sendo assim, não havia mesmo sentido em correr demais - refletia. Hoje o tempo é de andar devagar, sorvendo a beleza que existe em cada renascer. Tempo de trocar as lágrimas por esse sorriso assim tão meigo, tão simples, tão puro.
Nos últimos meses havia pensado muito em muitas coisas. Preferia cantar, pausar, sonhar. Descobrira o óbvio: a vida passa - e não pode ser revivida. Então – pensava: que a gente cultive um pouco de manha a cada manhã, num esforço criativo para compreender a marcha e ir tocando em frente. Vida que segue. E que siga bela e que me dê certezas de que pouco sei, mas que também sou forte e muito mais feliz. Sorriu. Estava em paz. Descobrira também que é preciso paz pra poder sorrir.

(Inspirado na canção Tocando em frente. Disponível em: http://letras.mus.br/almir-sater/44082/)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

OPOSTOS
Menina namoradeira, sorriso sempre de orelha a orelha. Saia rodada, deixando à mostra as pernas roliças. Batom vermelho nos lábios, perfume atrás da orelha. Olha-se no espelho e se admira.
Menino tímido, resolve se dedicar ao estudo. Pouco fala, pouco olha nos olhos do outro. Sente vergonha, medo, desgosto. Vontade de ser o que - sabe bem em seu íntimo - nunca será.
Meus cabelos estão péssimos, encontra um desaforo. Pega escova, creme de pentear, pega a cadeira e põe-se a sentar. Cuidado para não amarrotar a saia rodada. Foco no espelho. Penteia que penteia, enrola nos dedos: encacheia...
Pega o violão e se tranca no quarto. Traz o caderno, pega o lápis também. Sozinho, com a música, se sente grande. Compõe mais uma canção – que vem linda e fluidamente – para a menina que um dia conquistará. Quem ela vai ser? Vai me amar??
Assim está bem melhor! Mas o sorriso foge logo. Ajeita-se e se enfeita, mas não a olham olhos especiais. Todos lascivos, fúteis demais. Também eu assim sou?
A primeira corda do violão arrebenta. Pausa na canção e na vida. Silêncio. Barulho só do pensar...
Seu maior desejo era que a alegria que esbanjava em trejeitos sensuais fosse puramente devotada ao menino de seus sonhos.
Seu maior desejo era encontrar a menina de seus sonhos. Com ela falaria e nos olhos olharia. Pra ela cantaria todos os dias uma canção feita no café da manhã.
Sonhava.
Sonhava.

domingo, 21 de outubro de 2012

Aquela chuva...
Arrumou-se toda, aquela noite. Objetivo? Arrasar muito. Vestido perfeito, saltos magníficos (num corpo como aquele qualquer peça ganharia o status de perfeição). Cabelos escovados, jogados para o lado. Maquiagem carregada, mas sem perder a elegância. Bolsa com tudo o de que precisava.
Saiu de casa. O barzinho era bem perto de onde ela morava, então decidiu ir a pé. Mas começou, subitamente, a chover. Pingos grossos, ritmados numa sonoplastia de raios, relâmpagos, trovões. Meu Deus, e minha produção? Começou a correr, na tentativa de fugir da chuva. Besteira. Conseguiu apenas enfiar o salto num vão entre os paralelepípedos, danificando-o. Esse sapato era novo! Mais chuva, mais chuva, corre que corre e, enfim, alcança a calçada do bar. Aperta-se entre outros clientes e entra. Olha-se no espelho da recepção.
Arrumou-se toda, aquela noite. Desarrumou-a toda, aquela chuva.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Passadeira
Passava roupas por ofício. Não por vontade ou opção. Necessidade aliada à habilidade. Lucro suado pra garantir felicidade. O mínimo, verdade. Cada dia novas roupas. Pequenos amontoados que não eram seus. Mas que - com fé, suor e muita labuta - lhe apontavam caminhos para algo que dela, quem sabe, seria. Gostava do que fazia e envolvia-se com os feitos. Sorria enquanto o ferro aquecia.
E cantava para passar o tempo. O veludo de sua voz fazia as vezes das borrifadas de água: alinhava, amaciava, afofava cada peça. As pilhas de roupas amarfanhadas cedendo lugar ao dobrado, liso, esticado. Depois, cada solfejo parecia vivificar as roupas, conduzindo-as aos cabides. Sincronia na sua mais perfeita essência. Sorria enquanto a tudo assistia.
Havia doçura e magia naquela passadeira.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Todos os dias
Uma homenagem a todos nós, professores, que corremos, nos cansamos, às vezes pensamos que vamos enlouquecer, sofremos vendo o tempo passar mais do que deveria. Mas, quando perguntados se queremos outra vida, não titubeamos em responder que não. Porque é exatamente assim que desejamos que tudo seja. Parabéns!
Todos os dias ela acordava às cinco e se deitava apenas após às onze da noite. Passava o dia todo fora de casa, todos os dias. Ainda não conseguira comprar um carro, então corria de um lugar para o outro, ora utilizando ônibus, ora utilizando metrô. Corria o dia todo, todos os dias. Cada vez que chegava a um lugar, alegrava-se e alegrava. Deixava sonhos por onde passava, criava amigos por onde andava. Aprendera, há tempos, que com todos se pode aprender, especialmente se a alma não é pequena. Uma bolsa gigantesca e um sorriso imenso eram suas marcas registradas. Ah, e daquela bolsa gigantesca, sempre saíam mais sorrisos, cócegas, alegria. E também sabedoria, informações, dicas e surpresinhas. Da bolsa imensa saía poesia, continhas, geografia; tinha um pouco de gramática, matemática, biologia. Sua bolsa mais parecia uma cartola e ela, a maga-fada. Sorria, sempre sorria. Fazia isso o dia todo, todos os dias.
Quem a visse assim, todos os dias, numa correria louca, num frisson desesperado, poderia até pensar “Puxa, que moça infeliz!”. Mas se se aproximasse um pouco e deixasse de apenas a observar, veria um certo sorriso constante, uns braços sempre abertos, um olhar vívido e envolvente, uma satisfação sincera e grata por tudo aquilo tão agitado e que transpirava tanta serenidade. Quem se aproximasse ia ter a certeza de que aquilo só podia representar a felicidade intensa daquela moça, que de infeliz não tinha nada. Na verdade, ela sentia-se realizada e completa, todos os dias, a despeito da correria. A correria e a agitação diária, aliás, a alimentavam e davam força para ir além. E, ao fim de cada dia, podia agradecer a Deus por tudo que era e havia vivido, mais uma vez, como todos os dias. Era exatamente assim que ela gostaria que fosse.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Felicidade
Seus cabelos encaracolados balançavam-se ao Vento. Mas não era só isso. O Vento também lhe dizia segredos ao ouvido. Ela, criança que era, puramente inocente e feliz, sorria, encantada com aquele dialeto que apenas eles entendiam. Ora segredava-lhe uma canção. Ora uma historinha sobre lugares que só o Vento conhecia. Ora apenas uma frase engraçada.
A criança parou no meio da ponte que atravessava, abriu os bracinhos, erguendo-os aos céus. Arregalou os olhos, com esforço, para fitar o Sol brilhante, enquanto ouvia do Vento que aquele calor todo era um excesso de um ser que queria, a todo custo, mostrar-se superior aos demais. Apesar disso, era o Sr. Sol uma boa figura. Ela sorria e girava e dançava a música do Vento, olhando para o Sol com alegria. Era feliz ali, ouvindo o Vento, adorando o Sol, tendo sob si um lago brilhante. Era feliz e isso bastava.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A primeira vez

Sentia-se culpado pelo que fizera e buscava, desesperado, formas de se justificar. O tempo. Suas necessidades. A falta de dinheiro. O egoísmo dela. A crise mundial. Tudo servia de escora para sua alma fútil se apoiar. Fato era que se sentia culpado, triste, certo apenas de que, mais uma vez, agira de forma errada. Estava diante do espelho, com as mãos apoiadas sobre a pia e a cabeça baixa. Não conseguia erguê-la e olhar-se. Abriu a bica para lavar as mãos. Lavou também sua cara, horrenda e patética. Olhos fechados, puxou a toalha ao lado para secar-se. E então, num deslize, olhou-se. Levou um susto ao contemplar-se. Seu aspecto era de alguém não apenas culpado, mas cansado, entediado, infeliz. O pior de tudo, porém, não era assustar-se ao constatar seu estado; ele sabia que precisava dela. Que sem ela não vivia bem. Que dependia de seu deboche, seus carinhos, até de seu egoísmo. Que não sabia sorrir se não fosse para ela. Que não conseguia dormir bem se não fosse ao lado dela. Ela era seus sonhos, sua alegria, seus motivos. Ela era todas as suas razões de ser e existir.
Não sabia por que agira como agiu. Sabia apenas que sentir a presença da ausência dela era demais, não conseguia a isso suportar. Colocou a toalha no lugar. Encarou-se corajosamente. Aprumou-se.
Tudo o que precisava era dela. Então telefonou para ela, como se fosse a primeira vez.

domingo, 30 de setembro de 2012

Como quem não precisa acordar
No sonho, ela dançava nos braços dele, ao som de uma música ainda não criada, nunca antes cantada nem sabida, mas que os levava, qual folha ao vento. Era como uma cantiga de esponsais, mas completa, perfeita. Seus corpos estavam colados, ela de costas para ele, feliz por sentir os braços dele sobre os seus; ele, sem tirar o sorriso dos lábios, feliz por envolvê-la, poderoso, com braços, mãos, rosto, presença. Bailavam, felizes. Não havia erotismo, apenas uma pueril e singela sensualidade. E o crescente desejo de estar, para sempre, ali, onde a vida derramava-se por todo o corpo e por todos os gestos de ambos. Sua roupa era esvoaçante e mudava de cor à medida que eles giravam, obediente àqueles meneios tão ingenuamente puros. Os pés de ambos estavam desnudos. Roçavam-se cada vez que um passo era trocado, aumentando a sintonia e as batidas daqueles corações. As multicores invadiam o espaço, deixando tudo ainda mais bonito – embora ela não visse isso, pois mantinha os olhos fechados, numa tentativa de controlar aquilo tudo que vivia, sem perder um minuto sequer.
Aquele, aliás, era o momento mais especial de todos os que ela já vivera. Era sonho, sabia. Mas vivia-o tão intensamente que não se lembrava disso. Queria viver aquele sonho, que para ela era a realidade, idealizada e perfeita realidade. De repente, largou-se dele. O instinto reclamava que se mostrasse. Abriu os olhos e saiu rodopiando, nas pontas dos pés, como uma bailarina, a mais bela que já habitou sonho humano. Os cachos de seus cabelos longos enroscavam-se na pele morena, levemente suada após giros voluptuosos. Ele a contemplava, embevecido, até que não resistiu, correu até ela e abraçou-a. Corações em sintonia de ritmos e sentir. Com carinho, ajeitou os cabelos que encobriam seu olhar. Ele, embebido no olhar da moça, tocou-lhe os lábios e a beijou. Embora dormindo, quem a observasse na cama veria que seus pêlos eriçaram e um breve sorriso apareceu em seu rosto. A menina tornava-se a mulher que ama e se derrama nos braços do amado, sem pudor, temor, sem receio do amanhã que virá. A menina experimentava, pela primeira vez, quão bom é estar apaixonada. A menina feliz, abraçada ao amado, bailava. Não sofria por suas incompletudes. Ali, no sonho, era plena.
Ah! se a menina pudesse, viveria aquele sonho para sempre. Sua vida, acordada, não era alegre, não tinha aventura, não conhecia o amor. Era sombria e sem graça, sem ideia nem harmonia. O que possuía de bom, acordada, e que impedia que o tédio e a dor ocupassem todo o seu tempo era um piano antigo. Presente de sua mãe, que também ensinara a menina a tocar. Tinha a vocação íntima da música; trazia dentro de si muitas óperas e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que não alcançava exprimir e por no papel. Por isso era tão triste... Não conseguira ainda, acordada, compor uma canção plenamente. Por isso era tão feliz no sonho... Amava e compunha e dançava e não encontrava limites ou restrições. Não queria acordar nem precisava fazê-lo. Toda a sua existência se resumia naquela dança, cuja música, que embalava o encontro, o amor, o casal, ela mesma compusera. Ali, toda a inspiração. Ali, todo o amor. Ali, ela, ele, todos, plenos. A sensação de uma felicidade que não iria se extinguir. E continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados nos ombros um do outro, bailando, em paz. Como quem vive a felicidade dos que não precisam acordar.

(Inspirado no conto “Cantiga de esponsais”. In: ASSIS, Machado.  Contos: uma antologia. Volume 1. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.40-44)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012


Quarenta e oito horas  
"O tempo põe o grisalho na sua barba, o tempo leva o poder de explosão
e enquanto isso você está pensando - como um tolo - que ele ainda está ao seu lado." (Stephen King)
 
 
               Queria que o dia de hoje tivesse quarenta e oito horas. Só hoje. Não seria necessário mudar calendários, ampulhetas ou relógios: só queria que o dia de hoje tivesse quarenta e oito horas. Olho ao redor e vejo tarefas, compromissos, solicitações. Tudo a ser feito, pouco já executado, nada com tempo de folga. Por que a vida é assim, tão regrada, milimetricamente, ao som do tic tac, incessante onomatopeia que nos dimensiona o quão finitos somos?

               Sei que se trata de um querer impossível, cuja concretização é essencialmente abstrata. Mas fica o desejo de que esse tempo se estenda, congelem-se os minutos e os segundos passem em slow motion...

               O tempo todo nosso tempo escoa, o tempo voa, amor... escorre pelas mãos... E não há o que faça voltar os segundos, horas, minutos que um dia teimaram em ir. O que nos resta? Viver. Amar dessa vez como se fosse a última. Brindar a brevidade da vida chorando o dia que se vai. Pois ele sempre irá. E, com ele, nós.

               Vaidade, tudo é vaidade, já dizia o pregador, que talvez quisesse nos ensinar que tudo passa, na massacrante valsa do tempo.

               Eu? Apenas queria que meu dia hoje tivesse quarenta e oito horas.

               Mas sei que se isso ocorresse, reclamaria por setenta e duas.

domingo, 23 de setembro de 2012

Nós no espelho
Olho-me no espelho e me assusto ao ver a pele menos lisa, o rosto mais sulcado, dobras suaves nos cantos dos olhos. Parece também que os lábios se afinaram. Sobre eles passo a mão... também nela há pele demais, dobras demais, marcas demais. Surpreendo-me no espelho...
Meu Deus, quem é essa tão mais velha que eu? Lembra-me minha mãe, minha velha mãe. Percebo naquela do espelho algo dela e muito de mim. Somos uma fusão? Ou simplesmente me aproximo dela? Olhamo-nos para mim, mas pouco me reconheço, enfim. Sinto, porém, uma cobrança dura, como se nosso olhar me inquirisse “O que fizeste de mim?”
Arregalo os olhos e respondo “Nada”. Nada fiz de ti, mãezinha. Tu é que me invadiste, ruga após ruga, flacidez atrás de outra, trespassando-me a beleza da vida, aparecendo-me no espelho assim. Eu? Sou ainda a mesma menina. Tenho medo e sinto frio. Preciso do teu colo e nele me aninho. Eu mesma, princesa da casa, rica em bagunças e teimosias. Eu mesma que corri ao teu lado e te chamei bem perto e que hoje sinto falta de passar os dias bem ao lado teu.
Vejo-te em mim, no espelho. Cerro os olhos e vejo-me em ti, na vida. Abro olhos e lábios num sorriso que rouba daquela que vejo qualquer orgulho triste. Sou eu. És tu. Somos nós.
(Inspirado no poema “Espelho”, de Mário Quintana. Disponível em: <http://www.jornaldepoesia.jor.br/quinta.html>)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Mãos dadas
E os dois sentaram-se lado a lado. O olhar do velho pai vagava longe, embora parecesse fixo num ponto a poucos palmos do nariz. O jovem filho tinha a cabeça baixa, os ombros contraídos, os olhos perdidos no próprio colo. Durante muito tempo foi assim: um ignorava a presença do outro olhando para o distante; o outro ignorava a presença do um voltando-se para si mesmo.
Mas agora, ali, naquele final de tarde, havia diante deles um caixão posto. Mulher de um e mãe de outro.
Num instante, ambos olharam para a frente. Viram um corpo e – como se pelo corpo também tivessem sido vistos - foram tocados, um pelo corpo do outro. Aproximaram-se sem perceber, como que imantados pelo corpo da mãe que agora na morte, como o fizera ao longo da vida, tentava unir aqueles dois.
Um toque. E dois corações disparando, agitados. Ambos quiseram muito, pelos mesmos eternos segundos, se olhar nos olhos e dizer tanta coisa guardada, segredada à mulher ou à mãe, escondida sob medos, anseios, rejeições. Mas não ousaram erguer as frontes. Em lugar disso, porém, pessoas que choravam a tristeza do momento, puderam ver duas mãos - timidamente, sensivelmente, levemente - se tocando, se enlaçando, dando-se.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Prioridade
A mulher acordou atrasada, como todos os dias. Repetia-se também a desculpa: foi dormir tarde na noite anterior e perdera a hora. Preparou o café como quem tem fome: às pressas, irrefletidamente. Precisava se arrumar, acordar a filha, arrumar a filha, despachá-la para a escola. A van não esperaria; como a vida, era implacável.
Aprontaram-se, enfim. A criança apenas olhava para a mãe, talvez se sentindo culpada pelo mau humor alheio que gerava silêncios, resmungos, ações bruscas, indiferença. Abre a porta, para ajudar a mãe. Mas derruba a própria mochila, que se põe no caminho da mãe, derrubando-a. O olhar materno fulmina a menina. Antes que a adulta da relação esbravejasse algum ultraje, porém, a pequena lhe estende uma das mãos, enquanto, com a outra, afaga-lhe os cabelos.
- Eu ajudo você, tá, mamãe?
Pausa na vida. Filme que passa. Roda que envolve. Silêncio. Comoção. Arrependimento. A mulher apenas abraçou-se à menina, chorando, sentindo, sofrendo, escolhendo.
Lembrara-se de repente do que era importante.

domingo, 16 de setembro de 2012

Sobre respostas
                 “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.”
          Não são as respostas que movem o mundo, mas as perguntas, já dizia a propaganda de um canal de TV. A frase, na propaganda, se justificava a partir de situações comuns ao nosso dia a dia e que têm sido pesquisadas até hoje, por mais aparentemente simples que sejam. Uma boa opção ao conformismo e que, na verdade, acaba por mover o mundo. “Já disseram isso” “Já foi dito aquilo” pode até servir como resposta, mas apenas até que alguém, não satisfeito, continua se questionando até encontrar outras possibilidades de resposta. A reflexão faz sentido, se pensarmos que boas perguntas não se satisfazem com uma resposta inicial, mas motivam novos questionamentos. Quantas vezes as respostas mais frustram do que completam os hiatos deixados pela interrogação? Fazem-se, pois, novas perguntas, para as quais se buscam respostas, as quais geram outras perguntas... E o ciclo segue, como a vida.
          Hoje ouvi sobre respostas e a importância de que elas sejam brandas. Fiquei pensando em como, por vezes, somos “armados” nas respostas que damos. Não sei se por covardia, medo ou proteção, fato é que eu – confesso com pesar - já dei muitas respostas duras, ríspidas, desumanas. Parece que um filme passava em minha mente, em câmera lenta, hoje, enquanto ouvia sobre respostas. Pensei. Talvez tenha tido a oportunidade de apaziguar um coração, de ganhar um amigo, de romper qualquer desejo de estender uma briga, de atender a um pedido de socorro - mas acabei por não fazê-lo, e tudo porque o ímpeto, fraqueza, insegurança ou orgulho me fizeram dar uma resposta não branda. Palavra errada, na hora errada.
          Mas a frustração estaria diante de mim se a reflexão tivesse me levado a apenas sofrer ao recordar de respostas que dei e de consequências que vivi, ou poderia ter vivido, por conta disso. Hoje não apenas ouvi sobre respostas, mas também aprendi que é possível e necessário que elas sejam brandas, e isso por um motivo muito especial: a resposta branda desvia o furor. Enquanto escrevo, meu esposo assiste a um filme sobre dragões. A cena, há pouco, era a de um confronto. Que poderia ter sido evitado se uma resposta branda tivesse sido dada. Coincidência? Fica a pergunta.
          Tal como a decisão precipitada pode pôr tudo a perder, assim também a resposta não branda pode gerar reações de ira, rancor, mágoa; sofrimento, dor, frustração. Sei que às vezes somos confrontados por perguntas vindas de diversas pessoas, nas mais diversas situações. Nem sempre é fácil dar uma resposta serena e gentil. Mas é possível enchermos nossos coração e lábios de palavras boas, de respostas brandas, de frases gentis e motivadoras.
          Já disseram que isso tudo é bobagem. Também já foi dito que é a verdade perfeita. Pergunte-se a si mesmo o que vale a pena. Que Deus abençoe sua tarde!
(Referência: Provérbios 15:1. Bíblia sagrada)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Dispersão
          Era manhã de domingo. A mulher não sabia o que fazer. Todas as suas convicções, desejos, intenções bagunçavam-se n'alma, desordenando mente, espírito, tez. Fechava os olhos, apertava-os, como se isso a fizesse voltar no tempo, mudar o espaço, transformar seu estado. Sofria. Chorava. Tremia. Suava.
          - Onde deixei parte de mim? O que me fez ser apenas... assim? Serei... mas já não me sou...
          Desde criança ouvia que se a gente desejasse muito uma coisa, ela acontecia. E desejava, desejava. Nada vinha, nada vinha. Olhava para si vendo a vida que lhe passava feito um astro doido a sonhar... E lembrou-se de que morava no último andar. Foi à janela e olhou o mundo lá fora. Chamou sua atenção a beleza de uma grande ave dourada que batia e fechava suas asas no céu, um voo seguro como sua vida não fora. Ergueu a grade, sorveu o vento. Sentiu-se livre por um momento, invadiu sua mente de um bom pensamento. Paz... Pra sempre... Sempre é o tempo que cai sobre si como ontem.
          Chorou-se sobre si mesma, como quem chora ao perder um amante.
          Pegou sua bolsa sobre o sofá, viu nela um espelho. Mas não se achou na projeção que via. Da bolsa tirou caneta e papel: "Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto...". E ao escrever chorava, porque sentia saudades dos sonhos que não sonhou, da vida que não viveu, da canção que não cantou. Olhou para suas mãos, tristes, longas e lindas. O que poderia ter criado? A quem teria abraçado? 
          Fora apenas alguém que passou. Voltou à janela. Pediu perdão pela vida, pela morte, por seu ser. Lançou-se.
          Hoje, quando se sente, é com saudade de si.

(Referência: CARNEIRO, Sá. Dispersão. Disponível em: http://www.jornaldepoesia.jor.br/sa04.html)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Quebrar pedras
     
 I-       De minha janela, via o homem que quebrava pedras. Ele pegava, uma a uma, limpava, uma a uma, e ia moldando - uma a uma - limando as arestas, retirando o que não prestava, agrupando. Uma a uma. Um trabalho solitário, silencioso. O homem que quebrava pedras fazia isso sob um sol escaldante, protegido apenas pela sombra de um pequeno toldo.
          Eu observava tudo da janela de minha sala, refrescada pelo gélido ar condicionado, cercada de pessoas atentas, sorridentes e sem pedras para quebrar. Senti dó do homem. Um sol lindo daqueles e ele ali, sofrendo o que para mim era delícia. Comentei com um aluno: "que tarefa difícil, não?". Ele então esticou o olhar e também avistou o homem. "Talvez", respondeu apenas.
          Pensei que tal resposta poderia ser verdadeira. Quantas vezes nos julgamos pessoas legais e amigas e somos, bem lá no fundinho, preconceituosas e sempre prontas para julgar, como se nossos julgamentos, pensamentos, palavras - sempre viessem cercados de justiça, retidão, coerência e modelos? Pessoas às vezes são assim. Assim às vezes somos.
          Quebrar pedras pode ser, para quem quebra, uma tarefa honrosa, agradável, até, reflito. Tem gente que acha que ser professor é loucura, um erro, falta de opção, não é? Eu considero a melhor profissão do mundo, cercada de realização, prazer e bons momentos. Talvez o homem que quebrava pedras me dissesse isso, se perguntado sobre como é o seu fazer diário: "Difícil, nada. É bom fazer isso. Enquanto quebro, penso."
          A cada dia algo pode nos ensinar. Pode ser um livro, uma canção, uma palavra amiga. Pode ser um professor. Ou um homem quebrando pedras.

Quebrar pedras
     
 II-      De minha janela, via o homem que quebrava pedras. Ele pegava, uma a uma, limpava, uma a uma, e ia moldando - uma a uma - limando as arestas, retirando o que não prestava, agrupando. Uma a uma. Um trabalho solitário, silencioso. O homem que quebrava pedras fazia isso sob um sol escaldante, protegido apenas pela sombra de um pequeno toldo.
           Eu, que observava tudo da janela de minha sala, senti dó do homem. Um sol lindo daqueles e ele ali, sofrendo o que para mim era delícia. Eu observava tudo da janela de minha sala, refrescada pelo gélido ar condicionado, cercada de pessoas atentas, sorridentes, mas com suas próprias pedras para quebrar.
          Clarice Lispector, em A hora da estrela, revela que "Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas." Olho o homem que quebrava pedras, olho meus alunos realizando a produção de um artigo de opinião. A expressão deles - homem e alunos - é semelhante: tensa, ansiosa, com um quê de dúvidas, procura e esperança. "Tarefa difícil, não?", penso, taciturnamente, ao lembrar da frase de Lispector. A pressão da folha em branco, da mente em branco, do ponteiro do relógio que anuncia, a cada palavra/minuto: maisumamenosummaisumamenosummaisumamenosum...
          Mais uma vez, lembro-me de Lispector e recordo-me que a frase continua: "Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados". Sorrio. O homem quebra pedras, e os meninos, bem à minha frente, também. Não vejo mais nada além de faíscas e lascas.
(Referência: LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992. p.33-34)

sábado, 8 de setembro de 2012

Ponto a ponto, traço a traço
Dá-se o nó.
Uno as pontas
E linhas.
Juntos a letra, a voz e a rima
Alinhavados
Misturados
Apontando um rumo, uma sina.

Tecer
O que me pode tirar do abismo.