domingo, 29 de junho de 2014
sexta-feira, 30 de maio de 2014

Um
Eram dois, sempre o foram; porém feitos para serem um. Não sabiam disso, no entanto. Então, seguiam como dois, distintos e irreconhecíveis.
Um dia, numa dessas esquinas que a vida, faceira e inquieta, insiste em colocar à nossa frente, encontraram-se.
E eis que o mistério da unicidade se concretizou, envolvendo-os numa assustadora percepção que instantaneamente os acometeu: eram incompletos, existentes pela metade, e tudo o que os tornaria plenos estava bem ali, naquele outro incompleto à sua frente, espelho par que o mirava.
Deram-se as mãos e miraram-se profundamente. Os dois corações ritmados e completos. As duas mentes plenas, finalmente. Respiração e emoção, alegria e pensamento, sorrisos, vida, expectativas, tudo fundido num só. Estavam, enfim, prontos para se tornarem aquilo para o que foram criados: um. Apenas um.
domingo, 25 de maio de 2014

Desejos
Sim, amava-o sobre todas as
coisas e tinha medo de perdê-lo.
Um dia, ele pediu:
- Pode dançar para mim?
Feliz por aquele pedido que,
para ela, significava desejo e aceitação, dançou, ainda que fosse pequena, sem
graça e desengonçada.
Ele apenas ria; ela se sentia
feliz.
Outro dia ele disse:
- Você seria mais bela sem os
cabelos a lhe caírem nos olhos.
Ela, feliz pela demonstrada
preocupação, rapou logo todo fio de cabelo de sua cabeça. Agora, tinha livre o
seu olhar. Apesar de continuar pequena, sem graça e desengonçada.
Ele apenas ria; ela se sentia
feliz.
De outra feita, ele ordenou:
- Desejo que você olhe só para
mim!
Ela, ávida por atender aos
desejos dele, pensou que não precisava de dois olhos, que com um só ser-lhe-ia,
para sempre e facilmente, fiel. Assim, arrancou um olho.
Ele, ao ver sobre a mesa, fincado
num garfo, o olho dela que o olhava, riu até não mais se conter. Além de
pequena, sem graça, desengonçada e careca, agora a mulher tinha um olho só.
Ele apenas arrumou suas coisas e, sem parar de sorrir, deixou-a para sempre.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Balão prateado
A menina abriu a
janela do carro e, assustada com o sopro de vento quente que recebeu no rosto,
acabou soltando o balão prateado em forma de estrela que mantinha junto ao
peito. Imediatamente pôs-se a chorar - choro sentido de quem vê algo que ama partir, sensação
que se repetiria (pobre menina!) ainda tantas outras vezes em sua vida.
A mãe, compadecida,
tentava acalmar a filha, repartindo o olhar entre o carinho e o trânsito, a doçura e a correria. Mas a
pequena não era daquelas que se conformam ou facilmente se deixam dobrar;
chorava ainda mais, e mais ainda a mãe se dispunha a tranquilizar a filha, dividindo a atenção entre a pista e sua menina.
O balão? Soberano e firme, ascendia aos céus, enchendo o firmamento com sua liberdade prateada.
domingo, 12 de janeiro de 2014
Chicles
Sonhei esta noite que mascava chicletes.
Vários deles. Tantos que era difícil abrir e fechar a boca. Era uma massa
grossa e dura, mas dulcíssima, que se multiplicava magicamente em minha boca e
me forçava a mastigar, mastigar e mastigar. No sonho, eu fechava os olhos para
que aquele sacrifício fosse amenizado e então percebia que tamanho esforço era
acompanhado de um profundo prazer. Profundo e doce prazer. Era bom mastigar
aquela massa gostosa e sentir, sem nojo algum, gotículas provenientes daquela
masca a me saltar da boca e lambuzar timidamente o rosto, o pescoço, as mãos...
Meus pelos se eriçavam pelo corpo, a massa sendo amaciada em minha boca, saliva
doce me envolvendo a pele.
A doçura e o prazer se misturaram tanto
que me dei conta de que sentia medo. Medo de ser envolvida por aquela massa de
chicletes que, a despeito da mastigação, pouco amaciava. Imaginei o horror que
seria se eu fizesse uma bola, imensa bola que certamente me engoliria.
Abri os olhos, em sobressalto, acordando
daquele sonho-pesadelo. Percebi que tinha babado e limpei a baba na fronha do
travesseiro. Peguei o celular na mesinha de cabeceira e digitei “significado
de sonhar com chiclete”.
Situação que tem sido adiada, mas precisa
ser resolvida. Momento difícil do qual se deseja ver livre. Indício de
indecisão, postergação. Ausência de capacidade de se expressar oralmente de
forma correta. Fraqueza, vulnerabilidade, incapacidade. Não se deve confiar em
novas amizades. Melhor jogar na vaca. Ou se livrar dos problemas.
Desejei a bola de chiclete que me engolisse.
Tornei a fechar os olhos, e ela foi surgindo, primeiro eu a fazia, depois ela
se fazia em torno de mim. Crescia ao ponto de me envolver. Agora era eu dentro de uma
imensa bola de chicles, com cheirinho de tutti frutti e sabor de quero mais. Lugar
de silêncio e paz. Respiro lentamente, útero cor de rosa, respiro lentamente e
me ponho a sorrir. Aqui é belo e leve. E me faz deletar a pesquisa do Google, o
amargo do ser, a vida real.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
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